quarta-feira, 14 de julho de 2010

Rosa dos ventos..




Segurando o porta- retrato com a moldura grossa e cuidadosamente limpa, ela observava a foto em que todos sorriam felizes e unidos.
'' Quando será que tudo se perdeu ? '' . Era o que se perguntava,enquanto analisava a foto que tanto lhe chamou a atenção.
Olhou em volta e se viu em vários outros porta- retratos, sentiu uma sensação estranha, que ainda não sabia definir. Voltou sua atenção para a mesinha de centro, pegou um único porta-retrato que estava coberto pelo pó, soprou. Se viu. Não se reconheceu.
Os olhos azuis tinham um brilho incandescente, os cabelos negros caiam pelos ombros e nas pontas formavam pequenas cascatas. A felicidade em que se viu na foto, aqueceu seu coração por um breve momento. Estava sentada embaixo de uma árvore, rodeada com as folhas e flores que caíam da mesma. Segurava um livro e sorria docemente. Sentiu um forte aperto no peito e uma dor intensa fazia com que sua cabeça latejasse. Sentou-se. Apertou forte as duas mãos na cabeça tentando, inutilmente, arrancar a dor. No peito a sensação de perda se instalou. A dor na cabeça aumentou. Seu corpo se contorceu.
Flashes surgiam a todo instante, confundindo ainda mais sua mente. Transportou-se para outra dimensão.
Ao longe, observava uma linda menina dando os primeiros passinhos e ganhando o abraço dos pais. A pequena correu em sua direção. Daquela distância pôde perceber que a linda menina, tinha os cabelos negros como a noite e o sorriso doce como o luar. Seus olhos azuis estavam claros como o céu daquela tarde. Se reconheceu. Se perdeu. A pequena garota lhe estendeu a mão e balbuciou algumas palavras recém aprendidas.
Tentou tocar-lhe a mão, não conseguiu. A dor na cabeça se tornou mais forte. Abaixou-se. Fechou os olhos e deixou seu corpo se contorcer, acompanhando a dor. Abriu os olhos.

– Não pode maltratar o gatinho, Camilinha.
– Mas ele me arranhou, vovô.
– Ele não fez por querer, o bichinho só queria brincar contigo.
– Arranhar é brincar, vovô?
– Na natureza dele sim, florzinha.
– Eu não gostei dessa tal natureza dele. Não gosto de machucar os outros.

Agora estava ali, observando aquele velho senhor apertar o nariz e rodar aquela pequena menina que havia lhe estendido a mão.
Deixou-se levar pelo som da gargalhada que ecoava por sua cabeça. Fechou os olhos e sentiu a leve brisa tocando seu rosto.
Abriu-os novamente e agora, estava sentada ao lado de uma menina que dormia serenamente.
Acendeu-se a luz. De onde estava, observou a linda mulher dos cabelos longos e castanhos se aproximar, dar um beijo na testa da menina e sussurrar- lhe ao ouvido. Virou-se em sua direção e pode perceber seus olhos naquela mulher, a mesma cor, o mesmo formato. Tentou se aproximar, não conseguiu.. sentia seu corpo se afastar lentamente. Ainda pôde ouvir a voz da mulher – que agora estava distante, quase inaudível – lhe desejando boa noite. Deixou-se afastar mais uma vez. Já não controlava suas ações. Pensamentos e lembranças invadiam-na a todo instante.
A dor na cabeça que havia cessado, voltou. Dessa vez mais intensa. Apertava sua cabeça, contorcia seu corpo e gemia de dor..
Não sabia mais onde estava. Ouvia vozes, mas não conseguia identificar nenhuma. As lembranças surgiam cada vez mais rápido, não conseguia distinguir as cenas.. Parou. O silêncio reinou. Olhou em volta. Se viu em um roseiral. Imenso, imune. O vento trazia o perfume das rosas de encontro ao seu rosto..
Caminhou lentamente e tocou em uma rosa. Se encantou. Ao tocar a rosa, seu coração se preencheu Afastou-se do vazio e da solidão.
Tentou arranca-la. Sentia necessidade em ter a rosa para si. Seu instinto não se pôs em alerta ao ver um espinho. Puxou a rosa. O espinho adentrou em seu dedo. Sangrou.. Retirou o dedo e se assustou com a quantidade de sangue que saia. Se desesperou. Olhou em volta e viu que todas as rosas haviam murchado.
No céu, uma tempestade se formou.. Raios, trovões e tímidos pingos de chuva destoavam pelo ambiente. O medo invadiu-lhe o corpo. Pôs-se a correr..
As gotas de chuva aumentavam e limpavam o sangue, que escorria agora de seus olhos e boca. Ela não sentia dor, só medo. Não conseguia entender como um pequeno espinho havia lhe ferido com tamanha intensidade e em tantas partes do corpo. Correu mais rápido. A chuva a acompanhou.
Avistou uma casa em meio ao extenso roseiral. Correu em sua direção. Bateu na porta e esperou angustiada. Ninguém. Bateu novamente. Nada.

Estava perdendo muito sangue. Começou a se desesperar.. Já ia se afastar, quando ouviu um barulho vindo de dentro da casa. Esperou. A porta se abriu.

– Mãe?
– Entra, filha! Ta chovendo muito aí fora.
– Mãe, como? O que ta acontecendo? Eu.. olha, eu to perdendo muito sangue.
– Psii.. Não fala nada! Ta na sua hora, filha.

– Hora? Hora de quê, mãe? Por favor, me ajuda.. Me abraça.
– Ta na hora de voltar. Ta na hora de se encontrar novamente! A vida te deu uma segunda chance. Aproveita. Faça diferente.
– Mãeee.. Não.. Eu to morrendo! Eu to sumindo, me ajudaa.. Mããeee..



Acordou em um lugar diferente. As paredes eram todas brancas, havia um criado ao lado da cama em que estava, um quadro de Nossa Senhora na parede e um crucifixo em cima dele. Tentou mexer o braço e se viu presa a um suporte de soro. Começou a entender melhor, estava em um quarto de hospital. '' Por que? ''. Se questionou. Sentia uma dorzinha incômoda no peito. Abaixou um pouco o lençol que a cobria e se assustou ao ver a enorme cicatriz e os pontos, que pareciam ser recentes. Ouviu uma leve batida na porta e viu sua mãe entrar. Sorriu ao lhe ver .Tinha tanta coisa a perguntar, entender..



– Mãe?
– Filha! Não acredito que você acordou! – disse lhe abraçando.
– O que aconteceu? Eu não entendo.
– Você não lembra de nada?
– Não.. eu... Não lembro.
– Tem certeza que quer saber? O médico disse que isso poderia mesmo acontecer, mas era pra esperar você se recuperar e estar mais forte.
– Eu preciso, mãe. Ta um vazio aqui dentro. – apontou em direção ao coração. – Parece que falta alguma coisa. Eu não sei o que ta acontecendo.
– Eu vou te explicar, filha. – suspirou cansada – Acho que você ta tendo uma segunda chance de viver e não pode levar esse vazio ai contigo.
'' Segunda chance de viver '' ? – Pensou ainda mais intrigada.
– Fala logo, mãe. Ta me deixando nervosa.
– Há alguns meses atrás, você chegou em casa ainda mais feliz e sorridente do que já era. Logo percebemos que algo havia acontecido. Você estava radiante e com um brilho intenso no olhar. Te perguntamos e logo você contou que havia se apaixonado. Depois daquele dia eu vi você se tornar uma pessoa doce e feliz. Passou a viver seus dias intensamente, curtindo e alimentando esse amor. Até que..
– Até que? – perguntou aflita.
– Até que descobriu que o seu amor havia sido traído. A pessoa pela qual você dedicou todo seu amor, quebrou sua confiança. E depois daquele dia você se transformou completamente. O sorriso desapareceu de seu rosto, trancou seu coração e não abriu para mais ninguém.
– Nossa! Eu fiz tudo isso? – perguntou surpresa – Mas porque eu estou aqui, mãe? E o que é essa cicatriz aqui no meu peito?
– Você tentou se matar, filha. – sussurrou – Conheceu a rosa do amor, se aventurou e se perdeu por ela. Viveu tão intensamente esse amor que não se preocupou com os espinhos que o rodeavam. Você sempre foi uma pessoa generosa, nunca pensou somente em si mesma e até nessas horas você preferiu se ferir, para não ferir outra pessoa.
– Co.. como? – balbuciou.
– Um tiro no coração. Os médicos ainda não sabem explicar como você sobreviveu. Foi um milagre, minha filha. A vida lhe sorriu e você agora tem uma nova chance de viver. Seja cuidadosa e preocupe-se não só com a rosa, mas também com o espinho que a cerca.



Segurando o porta- retrato com a moldura grossa e cuidadosamente limpa, ela observava a foto em que sorria feliz.
'' Quando será que me perdi ? – Se questionou. – Tenho que buscar na imensidão do infinito o sorriso que deixei para trás. ''
Fechou os olhos.



– Vovô ? O senhor? Onde eu estou?
– Calma, Camilinha. Tá tudo bem! O vovô veio só pra te lembrar de uma coisinha. – tomou - lhe o rosto nas mãos e olhou diretamente em seus olhos – Não feche seu coração novamente. O amor é o sentimento mais sublime que o ser humano possui. Não tenha cuidado com o espinho, mas cultive a rosa para que ele não seja tão visível. O espinho que te machucou.. murchou sua rosa, mas também lhe deu uma nova chance de perpetuar tua flor.
– Eu não to te entendendo, vovô. Aonde o senhor quer chegar?
– A sua segunda chance de viver, veio da mesma pessoa pela qual você queria tirar a primeira.
– Continuo não entendendo.
– A razão do teu sofrimento, filha. Doou o sangue que você precisava pra transfusão e salvou tua vida. Acho que essa parte era muito importante e tua mãe não tinha te contado ainda. Teu roseiral ta florescendo novamente. Cuide dele. Acenda esse teu coração gelado. É a hora de colher os bons frutos e regar as flores novas. O vô te gosta muito. Te cuida, minha neta.

Abriu os olhos.
Voltou sua atenção para a mesinha de centro, pegou um único porta-retrato que estava coberto pelo pó, soprou. Se viu. Se reconheceu. Sorriu.
O sorriso que tanto procurava.. estava ali, bem diante de si. Ouviu uma batida tímida na porta. Seu coração acelerou. Era o amor.
O amor que voltou a colorir seus dias. O roseiral vai bem. Continua florido.
Os espinhos são cuidadosamente aparados a cada novo amanhecer. Anunciando mais uma chance que o destino lhe deu de viver.

Um comentário:

Rafinha disse...

E o blog há cada dia que passa, melhorando... Tem o seu segundo seguidor já!!! Isso aí Mari!!!! Arrepia!!!