sexta-feira, 9 de julho de 2010

A dupla face do tempo..





Eu estava ali, ao lado dela, tentando a todo instante provar que eu era mesmo confiável. A verdade é que sempre estive ao seu lado, desejando seu bem, velando seu sono. Só ela não viu. Não me ouviu.. Não resistiu.
E eu continuava ali, arrastado.. olhando fixamente para aquela criancinha. Frágil. Sensível. Fechei meus olhos e ao abrir, não vi mais aquela menininha. Vi uma garota. Decidida. Orgulhosa.. Tentei me aproximar, ela virou seu olhar em minha direção e eu entendi o significado. Passei longe. Apressado..
A garota viveu. Se envolveu. Sofreu.. E eu ainda continuava ali. Agora, vendo aquela moça se trancar, deixando o amor passar.. A ferida demoraria a cicatrizar. E mais uma vez eu estava disposto a ser o remédio. Deixar que o tédio não ocultasse a beleza da vida. Ser a pele à cobrir a ferida. Ela não quis. Negou ser feliz..
E a moça ganhou rugas. Experiência. Idade.. Só não veio com ela, a tal felicidade. A porta ainda estava trancada. A ferida aberta. Coração alerta..
E depois de tantas transformações e mudanças, permanecia intacta: a falta de esperança. Eu já não conseguia entender como aquela criança tão cativante, mudou tanto o seu semblante. Duro. Frio. E eu.. Eu tentei tanto, de todas as formas. Ela não quis saber. Deixou de correr em minha direção..
E agora, ela estava ali, sentada naquele balanço vazio me esperando chegar. Ofereci minha mão. Ela apoiou-se na bengala e juntos atravessamos a rua. Seu olhar estava direcionado aos seus pés. Ela olhava os passos pequenos, dificultados pelo peso da idade. Sentiu um olhar pousar sobre si e num gesto automático ergueu a cabeça. Encontrou o que não queria. Sentiu o que não devia. Os passos se tornaram mais rápidos. A pressa. A necessidade de viver era sufocante.
Puxei levemente a sua mão. Olhei fundo em seus olhos. Era tarde. Eu já não poderia estar ali.. Peguei em sua mão fria. Levei seu corpo para um lugar tranqüilo. Dei um beijo em sua testa. Olhei mais uma vez para aquela menina. E conclui com pesar que nunca fora tão difícil ser o tempo.

Um comentário:

Rafinha disse...

Um texto melhor do que o outro hein Mari... Essa sua qualidade eu não sabia. Parabéns!!!!