sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Melancolia de um sorriso.




É hora do espetáculo. O lugar está cheio. Pessoas ainda estão chegando. A música toca alegremente, convidando ao show que está por começar. Por trás das cortinas, posso ver algumas crianças se lambuzando com a maça do amor, outras, se deliciando com o algodão doce. Os pais se dividem em cuidar dos filhos e apreciar a batatinha frita que está deliciosamente salgada. O refrigerante está gelado. Integrantes do espetáculo vendem brinquedos e lanterninhas coloridas. As pessoas se encantam. Pessoas diferentes, unidas em um só propósito. O acordo silencioso, de que deixariam os problemas lá fora. O trabalho foi cansativo. Os negócios desandaram. A vida lá fora está parada. Hoje, a noite vai ser de diversão. Acompanharão as crianças no riso inocente. Deixarão que as pedras fiquem do lado de fora do caminho. As contas que ficaram por pagar, deixarão espaço para as lembranças da infância. Aquele tempo em que tudo era motivo para festa, será novamente vivido. Só por hoje, a noite vai ser apreciada. Sem culpa. Sem medo.
O assistente bate à porta e avisa que está na hora. O movimento se intensifica. Bailarinas repassam seus passos, amestradores relembram as palavras de comando.
Retoquei a maquiagem. Ensaiei o meu melhor sorriso. Dei vida ao personagem. É hora do show.
O picadeiro se ilumina. Os olhares se voltam em minha direção.As piadas gastas e repetidas, ainda provocam risadas. Fazem brotar pelos poros a essência escondida. A infância esquecida. Os lábios se movem involuntariamente.O ambiente se ilumina com a imensidão dos sorrisos. A nostalgia se propaga pelo ar. O cheiro de outro tempo se faz presente. No olhar, passa o filme em branco e preto.A molecada ainda corre, joga bola pela rua. A pipa é facilmente controlada por mãos hábeis, que hoje lidam com instrumentos diferentes. O pé de manga ainda está carregado. A festa de São João movimenta a cidade. Recebo aplausos e gritos entusiasmados. Meu número chega ao fim. É hora de outros artistas ganharem a atenção do público. Retirei a maquiagem. Olhei-me no espelho.
Avistei meu rosto pálido. O filme é colorido. Guardei meu melhor sorriso para o próximo espetáculo. A realidade bateu na porta. Trouxe com ela a amargura dos dias reais. A solidão se instala novamente em meu peito. Palhaço Melancolia. Alegrando da vovó a titia. Um último suspiro antes de enxergar no espelho, o reflexo de um olhar sem brilho. A vida lá fora me espera. Não consigo carregar a alegria do personagem. Viver feliz só por uma noite, já não basta. Minha infância não traz boas lembranças. A amargura tomou meu coração. Desviei meu olhar do espelho e fixei no chão. Palhaço. Melancolia. Sem olhar. Sem alegria.

Um comentário:

Rafinha disse...

Uebaaaaaaaaaaaaa... Este blog mal estreou e já estou adorando, haha!!!! Vai que é tua Marília!!!!

Beijoooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!