terça-feira, 3 de agosto de 2010

Trancado..




Estava ali, na sacada de sua cobertura, em frente ao mar. Segurava um copo de whisky e, com a ajuda do dedo, girava as duas pedras de gelo, que ali estavam há algum tempo. Curvou-se, de maneira que, seus cotovelos ficassem apoiados na grade de proteção e apoiou seu queixo, o segurando com a mão.
Desviou seus olhos do copo e pôs-se a observar o lugar à sua volta. A vista lá de cima era linda.
O vento fazia com que a brisa do mar chegasse até seu rosto, espalhando a sensação de frescor e suavidade, um contraste perfeito com a noite quente e seca que despontava naquele início de semana.
O dia fora cansativo. Resolveu alguns problemas no trabalho, deixou o dobro acumulado. O trânsito estava um caos. A geladeira começava a ficar vazia. A cabeça dava sinais claros de que iria doer. Os pés latejavam, os calos estavam evidentes.
Nada. Nenhum pensamento anterior desviou sua atenção do casal que passeava feliz e de mãos dadas pela areia. A leveza com que eles corriam juntos. Se olhavam. Tocavam carinhosamente e pareciam não mais querer se largar. Pareciam não ter cansaço, problemas no trabalho ou dor de cabeça. Beijavam-se como se o mundo fosse a língua que percorria avidamente dentro da boca. Explorando. Sugando. Marcando.
E por alguns, poucos, instantes se deixou perder naquela cena. Sua mente, numa tentativa insana, cogitou a possibilidade daquele sentimento realmente existir.
Balançou a cabeça, riu com sarcasmo e se perguntou mentalmente, se já não havia bebido demais.
Decidiu sair da sacada e voltar para o sofá, confortavelmente disposto no centro da sala, e assistir algum programa qualquer na TV. Só queria, e precisava, relaxar.
Teve os passos interrompidos pelo som da campainha que não parava de tocar. Praguejou e proferiu alguns palavrões inaudíveis, tomou a bebida que ainda restava no copo, o largou com força na mesa, e contrariando toda sua vontade, foi até a porta. Sem olhar no olho mágico, a abriu. Assustou-se.

– Você? – disse com a voz trêmula
– Eu disse que viria, qual o motivo da surpresa?
– E eu disse que não queria mais você. Qual o motivo da insistência?
– Me deixa entrar? – pediu suplicante
– Jamais. Vai embora! – Afirmou confiante
– Não adianta me expulsar, rejeitar. Não vou desistir de você.
– O problema é seu. Vou fechar a porta e você que se vire aí de fora! – Ameaçou um sorriso confiante
– Vou ficar aqui, batendo e gritando seu nome, até você abri-la novamente.
– Eu não entendo. Por que eu? Com tantas pessoas. Por que justo eu? – Deixou que um suspiro cansado escapasse
– Me deixa entrar, a gente conversa melhor, com calma. Uma trégua. Aceita?

Nada disse. Apenas deixou espaço suficiente para que entrasse. Acomodaram-se no sofá e se olharam por longos minutos.

– Você precisa acreditar em mim!
– Não consigo. – Colocou a mão na cabeça e bagunçou os cabelos, em um claro sinal de nervosismo.
– E por que?
– Você é intenso, generoso, grudento demais. Me transformou, me fez sentir coisas indescritíveis e depois, mágico como surgiu, se foi.
– Eu não fiz por mal. Era imaturo, inconseqüente, passageiro demais.
– Não quero mais me sentir tão vulnerável e sua presença é a receita para que ela cresça. Vá embora!
– Mas eu acabei de chegar. Aliás, ainda estou esperando outro alguém.
– O que? Do que você está falando? Quem está para chegar? – Perguntou sem entender.

A campainha tocou novamente, interrompendo o assunto e deixando a pergunta se dissolver no ar. Sem resposta.

Percebendo que, mais uma vez, sua vontade fora inteiramente contrariada, se viu obrigada a atender a campainha, que dessa vez tocava ainda mais apressada e estridente. Como que anunciando um palpitar conhecido e presente. Abriu a porta. Se encantou.
Se perdeu na imensidão cor de mel que se oferecia em um olhar cintilante. Não soube o que falar ou onde colocar as mãos. O silêncio foi quebrado..

– Oi! Eu acabei de me mudar para o apartamento ao lado e queria.. É..queria saber se você tem um pouco de açúcar para me emprestar. Eu sei que é meio estranho vir pedir açúcar justo no primeiro dia, mas.. – Nem conseguira ouvir o resto da frase. Sem pensar. Sem controlar as batidas do seu coração, apenas disse:
– Entra..!

Enquanto pegava uma xícara de açúcar, sua visita anterior, que ainda se encontrava por ali, abriu as janelas e deixou que a brisa fresca do mar entrasse. Voltou a se posicionar ao lado da anfitriã e sem que ela percebesse, sussurrou ao seu ouvido:

– Quem chegou foi a materialização do meu eu. O sorriso bobo. O acelerar do coração. Arrepios e tremor. Sou eu, o amor. E aquela pessoa distraída que acabara de esquecer o açúcar, a consolidação! Do amor. Do seu amor..

A solidão saiu do quarto, acompanhada da tristeza e melancolia. Saiu daquele apartamento e já do lado de fora, ao som de gargalhadas e vozes satisfeitas, sussurrou contrariada:

Ah, amor. Se você soubesse por quantos anos essa porta permaneceu trancada..

2 comentários:

Carlinha Guimarães disse...

Que liiiindo, Marília! :O
Não sabia desse seu outro talento :D
Ameeeeeei *-*
Parabéns mesmo! Seguindo aqui já :D
Saudadeeees <3

Rafinha disse...

É... Mari tem um talento nato. Escritora de mão cheia.